21 de fevereiro de 2010
eu sou do silêncio. não sei manter contato visual e meus amigos precisam ser falantes, caso contrário escutaremos grilos como plano de fundo. gosto de monólogos externos e sempre preferi escutar. não sei forçar risada. eu sou de convívio. pela minha falta de palavras, aprendi a compensar com gestos. quando o silêncio inevitável nos alcançar, eu vou te fazer cócegas. vou esticar meu lábio superior pra esquerda e o inferior pra direita e tu me perguntará como diabos eu fiz aquilo. depois das tuas tentativas frustradas em me imitar e do retorno infatigável do silêncio, eu vou tocar teu nariz com a ponta do dedo e cantarolar alguma música pertencente a trilha sonora de um filme cult visto no dia anterior. vou entrelaçar nossos dedos, vou recostar minha cabeça no teu ombro e vou dizer algo bobo com uma voz infantil. tu vai sorrir e achar meiguinho-fofinho-bonitinho ou então doentio, mas vai perder isso de foco quando eu começar a te morder, as vezes carinhosamente, as vezes pra te fazer sentir dor. assim eu vou seguir com minhas linguagens não-verbais cotidianas e tu vai descobrir que eu não fui feita pra palavras. e se um dia a gente morar longe ou viajar, talvez tu pense que eu já não sou mais tão divertida porque não saberei manter uma conversa decente pelo telefone ou pela internet. e tu vai considerar terminar tudo porque eu não sei puxar assunto e acabo sendo entediante. e eu vou te amar com tudo que posso, do âmago do meu ser, e talvez tu nunca chegue a saber disso plenamente porque eu jamais conseguiria transpor em palavras. eu bem que te disse: minha linguagem não é medida em caracteres.