passei dias andando na contramão e foi preciso que meu corpo quase se chocasse com um veículo pra que eu me atentasse que não tava caminhando do lado certo, tava no lado oposto, navegando contra cada onda daquele mar furioso de olhares e silhuetas. elas me confundiam. uma cabeça pra centenas de vozes, cada uma com uma versão sobre a história que tu contava, por vezes queriam lhe tirar o papel de diretor. ouvi risadas irônicas, vozes estremecidas, calorosas, palavras de carinho e até exageros de afeto e discórdia, era difícil desviar de tanta palavra que atiravam no ar.quase enlouqueci, ecoava na minha mente, uma rebeldia de decibéis entrelaçados a frases prontas e facilmente decoráveis. fechei os olhos, aos poucos tudo se distanciava, aos poucos eram sussuros, facilmente derrotados pelo batimento acelerado desse coração, aos poucos, não aos poucos, mas eu sabia que só isso era importante, esse som, só esse, só ele que eu deveria ouvir, por que ele calado diz mais que tudo que se pode falar, ele sente. mudei de lado, tô no caminho certo e se não for eu vou caminhar sem medo, rotacionei meu corpo pra sair da contramão, já era hora de parar de desviar, que desviem de mim. eu tô indo.