eu não sei como ele espirra ou como é que ele coça a barba quando tá crescendo. eu não sei qual é o cheiro de suas têmporas, nem em quantos segundos ele vira um copo com água. se para na metade do copo pra respirar. e, se para na metade, se coloca o copo de volta na pia. e, se me comeria ali mesmo, antes do segundo gole, se por acaso eu me enfiasse entre ele e a pia, entre ele e o copo, entre ele e a sede, entre ele e a fome. são coisas que eu nunca soube a teu respeito. mas, todos os dias, ele é comido pelo meu desejo. não é um desejo de joelhos, pulsos e cotovelos, é um desejo encefálico que se transfigura em fálico, é a tua inteligência que eu tenho vontade de chupar pra dentro da minha. oque eu sei a teu respeito é só um pedaço de ombro, braço, rosto e pescoço. e é esse pedaço que eu desejo. existem olhos que não são quaisquer olhos e são esses que estou indo encontrar. existem olhos que são úmidos de oceano e eu aqui, olhando o nada, nessa cadeira que eu olho os meus olhos não encostam, eles atravessam o tecido, sem rasgar ou ferir, eles atravessam o céu sem perfurar estrelas fincadas. deve ser nessa hora, quando o nosso olhar se perde, que enxergamos a morte, a morte o tempo todo nos rondando, uma fera que se alimenta dos restos de segundos que largamos pra trás, para que assim ela aceite não nos matar. é a vida quem alimenta a morte até o segundo insustentável, eu não sei em quantos segundos a morte vira um copo de água ou se ela me comeria ali mesmo em orgasmos agudos que me doem por dentro da vida. e quando eu olhar nos olhos dele? e quando eu tirar a máquina de tuas mãos, com urgência, a tua roupa, o teu medo, beijar a tua boca, a morte nos rondando, engolindo os nossos segundos e arrotando todo esse tempo que estivemos longe, e quando eu puxar pra perto e ele estiver por dentro, e quando eu tocar a tua língua com a minha e nascerem árvores de plástico como é que vai ser? será que o mundo vai tampar os ouvidos? será?